
Já faz 3 semanas que venho tentando escrever este
post sobre os sambas de enredo de 2008. Sou um apaixonado por
carnaval carioca, escolas de samba e afins. Se você não gosta, nem continue, pois é longo.
Tive grande dificuldade em definir uma ordem para os sambas. Fiquei ouvindo por semanas (acima a capa do cd) - e por semanas as dúvidas se mantiveram. Temos excelentes sambas este ano, bem distintos em estilo e perfil.
Minha vontade era pontuar do décimo-quarto até o primeiro colocado, fazendo com que cada um tivesse o seu lugar e escolhendo assim um grande campeão. Mas não deu. Tive que realizar uma separação em grupos, para poder assim chegar a alguma conclusão mais aceitável.
O PiorMocidade Independente de Padre Miguel é para mim o mais fraco samba de enredo de 2008, o pior do CD. Um samba que não tem uma definição
harmônica, que parece não ter sido pensado ou colocado no papel. Um samba confuso, com problemas de encaixe de versos, de encaixe entre letra e melodia, como se fosse um grande remendo. Um punhado de acordes e melodias bonitas não fazem uma música. Tudo precisa estar muito bem colocado, para que uma verdadeira composição apareça. E como é engraçado a vida. Ano passado, quando fui Jurado do Estandarte de Ouro do Jornal - O Globo, votei no samba da Mocidade como melhor de 2007. Para se ver que um dia é um dia, outro é outro.
Os RuinsVila Isabel e Portela me decepcionaram. Muito mais
a Vila, que vinha fazendo bons sambas nos últimos anos. Muita gente tem pensado que os sambas baseados em acordes menores, e assim mais sérios, são fundamentais para se obter o título. A Vila deve estar pensando isso e escolheu um samba muito ruim, de péssima harmonia e extrema confusão melódica.
Já
a Portela seguiu o caminho contrário. Resolveu unir todos os clichés possíveis, as escalas
harmonicas mais utilizadas no mundo do samba, fazendo com que cada passagem seja
previsível para o ouvinte - no começo da frase você já sabe como aquela melodia vai se fechar. Parece samba feito com manual, com receita. Uma pena.
Os bons Porto da Pedra, Imperatriz, Salgueiro e
Viradouro estão com
ótimos sambas. Não são os melhores em minha opinião, mas podem levar suas escolas ao título.
Neste grupo, penso que o da Porto da Pedra seja o mais fraco. Tem
ótimos refrões, uma boa cadência, lenta, o que permite um bom encaixe com a bateria, mas a sua segunda parte é ruim, com alguns choques
harmônicos que estragam determinados pontos do samba (como a parte
"Vi um gato no mangá...).No samba da Imperatriz temos um bom refrão principal (que lembra a melodia do samba da Caprichosos em 2004 sobre a
Xuxa) e uma excelente segunda parte, principalmente no final quando se inicia
"O tempo passou, irão se casar...". Mas como um samba nota 10 não pode ser feito apenas de alguns bons trechos, a Imperatriz deverá perder nota em função da primeira parte de seu samba.
O Salgueiro vem com um samba que é a sua cara. Refrões pra cima, felizes, acordes maiores e miolos fracos e rápidos, feitos para se voltar
rapidinho ao refrão. Como sempre, a parte melódica não é tão explorada, até mesmo porque não faz muito o estilo vocal do Intérprete da escola, o famoso
Quinho. Mas é um samba que contagia, pelo tema (Rio de Janeiro) e por sua levada de bateria.
Tem gente que vai me bater, por colocar o
samba da Viradouro neste grupo, mas infelizmente não consegui me deixar levar apenas por seus refrões. Entendo a beleza poética de
"Bate outra vez no meu coração/e já vai terminando o verão/As rosas não falam..." Também acho que o refrão secundário
"O show da bateria alucina..." um dos melhores do ano, mas no geral e principalmente em seu miolo, temos um samba limitado, que também parece ter sido feito para se voltar ao refrão rapidamente. Alguém deve ter pensado: "Com esses refrões não é preciso mais nada", porém é preciso sim analisar que um samba nota 10, um samba gostoso e inesquecível é aquele que a gente canta, canta, canta e não enjoa - e esse não parece ser o caso. A
Viradouro quase chegou lá.
Os notas 10São Clemente, Beija-Flor, Grande Rio e Mangueira e Unidos da
Tijuca estão no grupo dos melhores de 2008.
A Beija Flor (vão me bater de novo) conseguiu fazer um lindo samba, mesmo parecendo literalmente igual aos dos últimos anos. É igual, mas diferente. Maluquice isso não? Mas o samba é lindo, dramático, como sempre repleto de harmonias menores, o chamado "canto de guerra". A letra é extremamente poética, cobrindo quase todo o enredo.
A Grande Rio também não fez feio, com um samba que poderia perfeitamente ser assinado pela Beija-Flor - sério, profundo, e de raça. E o grande destaque desse samba é o miolo muito bem harmonizado, permitindo
ótimos contra-tempos com a bateria. A parte
"Repousa no lago Senhor/Exala o perfume da flor..." é
ótima. Temos neste samba o exemplo de que nem sempre o Refrão é o destaque.
O mesmo acontece com a Mangueira. Não é o seu refrão principal a melhor coisa do samba (é até a parte mais
bobinha, com um fechamento forçado e infantil "É
Frevo, é
frevo, é
frevo"). O miolo desse samba é o grande destaque, com um excelente refrão secundário e uma
ótima segunda parte que cresce propositadamente até o refrão principal. A única falha que causa estranheza são os versos:
"É a Mangueira no passo do frevo, voltei de sombrinha na mão, sonhando em gritar é campeã" - os compositores quiseram fechar a rima no feminino para relacionar a
ação com a "Mangueira" na primeira frase. Um luxo desnecessário que atrapalha quem está cantando, pois o
cérebro automaticamente tenta fazer a relação pelas frases mais próximas, ou seja, o termo "mão" pede o fechamento "campeão". Mas isso não tira a força desse belo samba. É só um detalhe.
A São Clemente é a grata surpresa. Ou talvez nem seja. Ela sempre vem com bons sambas. Mas este, desta vez, é muito bom mesmo. Um samba que poderia ser tranquilamente assinado pela União da Ilha do Governador. Alegre, com muitos acorde maiores e mesmo assim permitindo belas linhas
melódicas. É um samba que você canta sorrindo, o tempo todo, por muito tempo, sem enjoar. É aquele pra desfilar. Mas como vocês sabem, a falta de nome da escola, o fato de ser pequena, tudo isso fará com que muitas pessoas não notem a qualidade deste samba. Se no
carnaval, as notas fossem dadas sem que se soubesse o nome da escola, muitas agremiações menores poderiam ter sido campeãs (e a Portela já teria caído).
E falando em injustiças,
talvez o mais belo samba de 2008 venha da Unidos da Tijuca, uma escola que há 4 anos vem fazendo sambas completos, misturando harmonias maiores e menores, partes melódicas com partes
percussivas, letras poéticas e populares, uma verdadeira escola de fazer samba. Este ano não foi diferente. O samba da T
ijuca tem tudo isso, simplicidade e virtuosismo através de harmonias rebuscadas que lembram os sambas mais tradicionais de Cartola e
Noel, valorizados pelos vocais de
Wantuir, que trabalhou de forma belíssima a gravação da segunda voz no samba. Será o ano do
Tijuca?
Se você já ouviu o CD, deixe aqui sua opinião. Qual o melhor samba de enredo de 2008?